III – Trabalhos sobre navegação e náutica

Na terceira secção, num total de 55 obras e artigos, foram integrados os trabalhos de náutica e navegação, ou ainda aqueles que se dedicam especificamente aos problemas técnicos das viagens (sobretudo a primeira) e dos navios utilizados por Vasco da Gama, assim como os que seguem de perto a relação dita de Álvaro Velho. Alguns dos títulos aqui incluídos referem-se a Os Lusíadas, mas procurou-se incluir aqui apenas as obras de teor especificamente náutico, remetendo outras questões que envolvam o Poeta para a secção IV.

A reconstituição da rota da armada de Vasco da Gama, na primeira viagem, tal como é hoje aceite pela generalidade dos historiadores, ficou sobretudo a dever-se aos trabalhos de Gago Coutinho, num conjunto de ensaios e artigos que foram posteriormente reunidos, na sua maior parte, em A náutica dos Descobrimentos. Ficou célebre a polémica em que o insigne almirante se envolveu com José Maria Rodrigues, nas páginas da revista Biblos, no decorrer de meia década. Este autor afirmava, mediante a análise de várias estrofes do Canto V d’Os Lusíadas, que Camões descrevia duas rotas distintas da armada de Vasco da Gama, no Atlântico. Gago Coutinho, para além de não vislumbrar qualquer “rota dupla” na obra, arremessava ao arguente todo o peso dos seus conhecimentos de Náutica e de História para o refutar, partindo de um problema ético aparentemente menor: repugnava-lhe que Luís de Camões tivesse induzido propositadamente o leitor da epopeia em erro e confusão, por mero artifício literário, sendo conhecedor da verdadeira rota que utilizara Vasco da Gama. A polémica acabou por morrer em 1934, sendo os argumentos de Gago Coutinho aceites hoje pela generalidade dos historiadores.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174