Em 1925, Luciano Pereira da Silva escrevia um importante ensaio (“O ‘roteiro’ da primeira viagem do Gama e a suposta conjuração”) que viria a afirmar de vez a versão que é hoje mais corrente e geralmente aceite acerca da primeira viagem de Vasco da Gama. O seu artigo surgiu na continuidade de trabalhos de terceiros (nomeadamente Frederico Dinis de Ayala, em Vasco da Gama: quando partiu?) que colocavam sérias reticências ou rejeitavam liminarmente o valor do relato chamado de Álvaro Velho. Estes autores apoiavam-se nas informações de Gaspar Correia e Jerónimo Osório, contra os dados veiculados por João de Barros, Castanheda e Damião de Góis, que concordam em geral com os dados do relato anónimo. Para além da data da partida da expedição, estava igualmente em discussão uma alegada revolta, ou ensaio de revolta, a bordo da armada, por alturas da passagem do Cabo da Boa Esperança, veiculada pelos dois cronistas acima indicados, que Alexandre Herculano concedera algum crédito mas que Pereira da Silva, apoiado por Franz Hümmerich, rejeitava em absoluto.

Uma obra absolutamente essencial para a primeira viagem de Vasco da Gama é o artigo de Gabriel Ferrand (de 1922, traduzido para Português pouco depois), onde pela primeira vez se identificou o piloto que o rei de Melinde cedera ao capitão-mor, e que os cronistas portugueses chamavam de “canaqua” ou “malemo canaqua”, com Ibn Madjid, cosmógrafo árabe autor de diversos roteiros e obras de náutica. Esta versão foi rapidamente aceite pelos historiadores, tendo sido posteriormente reforçada com a notícia da existência de três roteiros do mesmo piloto em Leninegrado (ou S. Petersburgo), descobertos em 1930 pelo orientalista soviético J. Kratchkovsky, mas que só viriam a ser publicados em 1958 por T. A. Chumovsky, um seu discípulo. Um deles é o célebre Roteiro de Sofala, que faz diversas referências aos Portugueses. Esta versão, acompanhada pela reprodução do roteiro, foi aceite sem reservas, por exemplo, por Costa Brochado (O piloto árabe de Vasco da Gama). Estudos posteriores viriam, no entanto, a deitar por terra esta tese, ao provar que o famoso Ibn Madjid deixara de navegar muito antes da chegada do Gama às águas do Índico, e que as referências que as suas obras fazem aos Portugueses resultam, muito provavelmente, de interpolações posteriores (cf. por exemplo Luís Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses, secção I).

Por fim, refira-se ainda o útil trabalho de José Pedro Machado (“Terras de além”), autor igualmente de uma boa edição do roteiro dito de Álvaro Velho, que elabora uma listagem alfabética de todos os topónimos do referido relato, com a respectiva identificação e com o devido aparato crítico e erudito.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174