V – Romances, poemas, obras musicais

A vida e os feitos de Vasco da Gama inspiraram, sobretudo por ocasião dos centenários, vários autores a escrever poemas ou romances. Contabilizámos 30 títulos, de que o exemplar mais recente é a obra de Mário Cláudio Peregrinação de Barnabé das Índias, remontando a obra mais antiga ao longínquo ano de 1792. Trata-se, curiosamente, não de uma poesia ou de um romance, mas de um drama musical, algo semelhante a uma ópera. Da autoria de A. Filistri, poeta da Corte prussiana, a obra, em três actos, foi representada no Teatro Real de Berlim, em 1792. A edição é bilingue, em Italiano/Alemão. Contém apenas seis personagens:

Vasco, capitão-mor da armada portuguesa; Ostarbe, o Samorim de Calecute; Alzira, uma escrava árabe do Samorim; Fernando, irmão de Vasco; Darassa, princesa de Narsinga, pretendente à mão do Samorim, e Monsaid, o mouro de Tunes, confidente do mesmo Samorim. O argumento parece deveras simples: trata da chegada dos Portugueses a Calecute, e das tentativas empreendidas por Vasco da Gama para obter uma aliança com o Samorim, tendo sido ajudado por Monsaid mas contrariado pela gente da terra, que incentivava o seu rei a prender o capitão português.

Geralmente em tom inflamado e patriótico, as poesias dedicadas ao navegador não primam, diga-se em boa verdade, pela originalidade, embora algumas sejam formalmente perfeitas. Um exemplo interessante, que revela o aproveitamento das figuras da História para as paixões nacionalistas de determinadas conjunturas, é o poema de Alfredo Ceillão. Dedicada aos republicanos, em pleno ardor nacional motivado pelo ultimatum inglês, a obra, escrita em tons carregados e tristes, relembra glórias passadas, mencionando a época de Vasco da Gama. De seguida, introduz os ingleses, a quem chama de “piratas” e que brinda com autênticos mimos (“Nesse tempo a Inglaterra era um curral infecto/ De celerados vis e rotos pescadores/ Em cuja alma corrupta, em cujo ventre abjecto/ Andava a vilania a fecundar traidores”) para posteriormente traçar um quadro negro do presente, anunciando a alvorada da revolução republicana.

Por último, temos os romances, que na maior parte dos casos são descrições ficcionadas da primeira viagem do Gama, sendo uma boa parte da autoria de estrangeiros. Um deles, da autoria de José Álvarez-Perez, mereceu uma tradução para Português pela mão de Cândido de Figueiredo, que no entanto não indica o nome do autor, dizendo “traduzido do Espanhol”.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174

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