500 anos achamento Brasil


Eis aí, Sras. Deputadas, Srs. Deputados, apenas alguns dos muitos argumentos que demonstram a vantagem da nossa parceria económica e a sua vocação para o sucesso, tornando-se um elo relevante da História compartilhada há 500 anos.

É exactamente essa ligação tão complexa e sui generis que nos leva a comemorar juntos o facto histórico que lhe deu partida, do mesmo modo como festejamos juntos outras datas importantes da nossa História comum. Assim foi nas comemorações do IV Centenário do Descobrimento, em 1900. O mesmo aconteceu com o Centenário da nossa Independência, em 1922, quando – e isso já foi aqui salientado pelo Presidente Almeida Santos – o Presidente António José de Almeida nos visitou e, num feito de simbolismo marcante, os aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral empreenderam o histórico voo da travessia Lisboa-Rio.

Sr. Presidente, Srs. Deputados: Tais e tantas são as provas de nossa amizade, que se renovam nesta Sessão Solene, de tão profundo significado para nós, brasileiros.

Sopradas pelos ventos da democracia, as velas das nossas Repúblicas se enfunam na direcção de destinos jamais sonhados. Precisamos, sim, juntos, sonhar, viver e ainda navegar. […]

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, António Carlos Magalhães, na sessão solene comemorativa dos 500 anos do achamento do Brasil e de boas-vindas ao Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, 16 de Maio de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 85 a 90

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Permitam-me prosseguir, nesta imagem da frota a navegar, com outras naus de elevados capitães, de grandes senhores.

Luís de Camões, a cantar as glórias da pátria «por mares nunca dantes navegados», Frei Luiz de Sousa, Dom Francisco Manuel de Melo, Herculano, Camilo, Garrett, citado pelo Sr. Presidente, Quental, Ramalho, Eça, Ferreira de Castro, Torga, todos esses, e muitos mais, navegadores de grande curso pelos imensos mares do nosso idioma. Mares esses, pelos quais, por baías e angras de todos os quadrantes, também navega Pessoa, como aqueles capitães de si mesmo, que são Caeiro, Reis e Campos.

E aqui desembarco desta nobre frota de capitães sem mácula, feliz de com eles navegar ainda hoje, com frequência, ao estender a mão em busca de algum dos seus escritos, de entre os meus livros.

O idioma, mais do que facilitador da comunicação entre nós, tornou-se o caminho de aproximação que, hoje, devemos ser capazes de estender aos demais povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, nossos irmãos de Angola, Cabo Verde, Guiné, Moçambique, São Tomé e Príncipe e o recém-chegado, que merece o nosso apoio nesta hora, Timor-Leste.

Registo, aliás, com especial satisfação, que nossos Governos empenharam-se no contínuo aprimoramento desta especial parceria: há dias, foi assinado, em Porto Seguro, na minha querida Baía, como parte das comemorações do aniversário da chegada de Cabral ao Brasil, o novo Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta, amplíssimo documento que consolida, fortalece e diversifica as relações entre os nossos dois povos.

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“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, António Carlos Magalhães, na sessão solene comemorativa dos 500 anos do achamento do Brasil e de boas-vindas ao Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, 16 de Maio de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 85 a 90

A revista Orfeu, principal meio de expressão da geração modernista portuguesa, lançada em 1915, foi gestada no Rio de Janeiro pelos diplomatas Luís de Montalvor, português, e Ronald de Carvalho, brasileiro.

Mas, para além de inúmeras e mútuas influências, o elo mais forte e emblemático entre Brasil e Portugal, no campo literário, talvez seja António Vieira.

Neste ponto, é com emoção que vos convido a uma navegação de saudade, marcada pelos faróis antigos da «última flor do Lácio, inculta e bela», no bem-dizer do poeta da língua portuguesa.

Mais do que factor de unidade, é o português a linha maior da união das nossas culturas. E nesse mesmo oceano do idioma, a navegar a nau capitânia, vai o «imperador» António Vieira.

Meus amigos, esse António me é muito familiar desde a infância, na cidade do Salvador, por onde, pelas suas ruas, as sandálias do missionário o levaram em missão evangelizadora. Pregador, diplomata, homem político de fina e pura água, Vieira foi um dos personagens mais cativantes da cena portuguesa do século XVII. Foi ele o excelso protagonista dos acontecimentos políticos nos seus instantes cruciais de decisão, fosse na Baía colonial, nas matas do Maranhão, como aqui foi citado, ou da Amazónia, fosse na mercantilista Amsterdão ou nos gabinetes de opulência cultural e política do Vaticano ou de Cristina da Suécia.

Esse grande e incomensurável Vieira, senhor de obra literária extraordinária, nos Sermões, anda por desvendar nos estudos sobre o messianismo da História do Futuro, como ninguém o fez.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, António Carlos Magalhães, na sessão solene comemorativa dos 500 anos do achamento do Brasil e de boas-vindas ao Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, 16 de Maio de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 85 a 90

Já neste século, bem mais perto de nós, a História nos mostra um outro momento singular em que Brasil e Portugal, cada um a seu modo, percorreram caminhos políticos convergentes no rumo de uma reafirmação democrática ansiada recentemente pelas duas nações.

[…]

São profundas e complexas as ligações entre brasileiros e portugueses. Elas são, na verdade, antes de tudo, relações afectivas, de parentesco mesmo. Como bem apontou Álvaro de Vasconcelos: «que família portuguesa não tem parentes no Brasil? Quantas famílias brasileiras não têm parentes na terra, de onde são originários os seus avós?» Na terra de VV. Exas.

Essa intimidade ocorre também no campo cultural, facilitado por passado e idioma comuns. E aqui aproveito para responder ao nobre Deputado Medeiros Ferreira, que disse da necessidade de, cada vez mais, o Brasil internacionalizar a nossa língua, ajudando os países que falam português, fazendo crescer as suas populações, porque países que não têm um idioma falado no mundo são países que não se fortalecem para o progresso e para o desenvolvimento. Daí, serei um soldado nessa batalha que os portugueses, com justa razão, reivindicam.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, António Carlos Magalhães, na sessão solene comemorativa dos 500 anos do achamento do Brasil e de boas-vindas ao Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, 16 de Maio de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 85 a 90

Vivemos 500 anos de uma história comum, que serviram para sedimentar uma relação singular, repleta de ricos episódios. Para citar um deles, ainda dos primórdios da vida do Brasil, lembremos a luta que uniu as três principais raças formadoras da cultura brasileira contra a invasão holandesa, na primeira metade do século XVII: portugueses, índios e negros combateram juntos, construindo, assim, os primeiros fundamentos, aí sim, da nacionalidade brasileira e da defesa do território nacional.

As relações entre Brasil e Portugal são tão estreitas que ensejam mesmo curiosos paradoxos. Paradoxos aparentes, na verdade. A independência do Brasil foi proclamada por D. Pedro I, príncipe português, que veio a constituir-se em um dos mais expressivos traços de união entre as nações que separou politicamente em 1822.

Antecede a nossa independência um outro facto, que a ela se encadeia historicamente e que guarda uma correlação simbólica e estreita com o momento que vivemos nesta Assembleia: o Brasil foi representado por Deputados de suas províncias na Constituinte portuguesa de 1821, que marcou o fim do absolutismo monárquico.

Reunidos nas Cortes gerais e Constituintes Extraordinárias da Nação Portuguesa, portugueses e brasileiros ajudaram a forjar a Constituição que primeiro instituiu o sistema representativo no reino português.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, António Carlos Magalhães, na sessão solene comemorativa dos 500 anos do achamento do Brasil e de boas-vindas ao Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, 16 de Maio de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 85 a 90

Estou certo de que todos os que aqui nos reunimos, nesta tarde, temos a consciência do que representou a viagem de Cabral em 1500. É verdade que ela pode ser vista como apenas um dos episódios no conjunto dessa extraordinária epopeia da navegação portuguesa, interpretada pela poética exclamação do génio de Pessoa, quando dizia: «Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!»

Entretanto, pelo que veio a representar, tanto para os brasileiros quanto para os portugueses, e mesmo para o mundo, esse feito inaugurou um complexo processo de criação cultural e de civilização, que se consolidou numa relação notável entre os nossos povos.

Há cinco séculos, Portugal e Brasil caminham ligados de maneira indissolúvel.

Por obra e graça da parceria política, cultural e forte pelo afecto que une estas duas importantes nações. Mesmo assim, em momentos de divergência, naturais numa relação madura, complexa e multifacetada, essa ligação resistiu a tudo que foi possível.

“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, António Carlos Magalhães, na sessão solene comemorativa dos 500 anos do achamento do Brasil e de boas-vindas ao Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, 16 de Maio de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 85 a 90

Sr. Presidente Almeida Santos, Srs. Ministros, Srs. Presidentes do Tribunal Constitucional e do Supremo Tribunal de Justiça, Autoridades, Corpo Diplomático, em particular Embaixador do Brasil, Minhas Senhoras e Meus Senhores, Queridos Parlamentares:

Vivo, hoje, um momento transcendente na minha longa jornada política. Tenho a honra e a alegria de representar o Congresso brasileiro nesta sessão da Assembleia da República portuguesa.

Há, nesta solenidade, uma conjunção extraordinária de circunstâncias que torna este momento especialíssimo para mim. Filho da Baía, a terra que acolheu Cabral na sua chegada ao Brasil, e Presidente do Congresso brasileiro, sou recebido nesta Assembleia para festejarmos o acto do Descobrimento e a terra descoberta.

O privilégio de estar aqui, participando dessa sessão, é muito caro, Presidente Almeida Santos, é muito da sua vontade, e quero registá-lo, mercê da nossa amizade e da sua generosidade. Sou-lhe muito grato, bem como a todas as Sras. e Srs. Deputados, por me oferecerem esta oportunidade única de reencontro com a ancestralidade.

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“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, António Carlos Magalhães, na sessão solene comemorativa dos 500 anos do achamento do Brasil e de boas-vindas ao Presidente do Congresso Nacional da República Federativa do Brasil, 16 de Maio de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 85 a 90

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