Descoberta do Brasil


Pedro Álvares Cabral, membro da nobreza e militar (cavaleiro), de apenas 32 anos de idade, recebera de Vasco da Gama indicações sobre a rota a seguir a partir dessa região, com a famosa “volta do mar”, fazendo um desvio para ocidente / sudoeste, visando evitar as calmarias do Golfo da Guiné, antes de rumar a sudeste até contornar o antigo “Cabo das Tormentas”.

Assim, após a entrada no hemisfério sul, a rota seguida passou a ser dirigida a su-sudoeste, tendo a frota passado a cerca de 200 milhas a ocidente do arquipélago de Fernando de Noronha.

Cerca do dia 18 de Abril, a expedição encontrar-se-ia próximo da Baía de Todos-os-Santos (13º S), impelindo-a o rumo seguido progressivamente a caminho de terra. No dia seguinte, Domingo de Páscoa, a armada lusitana terá passado a cerca de 250 quilómetros da costa, à latitude de Salvador.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

Cerca de 100 quilómetros depois, com os ventos alísios de nordeste, a esquadra de Cabral rumou a oeste, em direcção ao arquipélago de Cabo Verde, a cerca de 600 quilómetros da costa africana, tendo a ilha de São Nicolau sido avistada a 22 de Março.

No dia seguinte, a nau capitaneada por Vasco de Ataíde desapareceu, sem que, aparentemente, houvesse condições meteorológicas que o pudessem justificar («sem aí haver tempo forte nem contrário para poder ser»), tendo as diligências para a localizar, realizadas durante dois dias, sido infrutíferas. Era o primeiro de uma série de alguns naufrágios da expedição.

Retomando viagem, a esquadra iniciaria, entre 29 e 30 de Março – localizando-se a cerca de 5º N – a passagem pela zona de calmarias equatoriais, em que os navios podiam ficar praticamente imobilizados durante mais de um mês.

Aí ficariam retidos durante cerca de 10 dias, até que, possivelmente a 9 de Abril, precisamente um mês após a partida de Lisboa, cruzariam a linha do Equador.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

Ao final da tarde do Domingo previsto para a partida (8 de Março), e após a saída de Lisboa para o Restelo, o tempo mudaria, com ventos fortes impedindo a descida do Tejo por parte da frota.

Apenas no final da manhã de 9 de Março de 1500 seria finalmente possível zarpar e entrar no Oceano Atlântico. Cerca de 1500 homens iniciavam uma aventura de que apenas 500 regressariam.

A partir de Lisboa, seguindo o rumo sul-sudoeste, beneficiando de ventos favoráveis, passaram próximo da ilha da Madeira, apontando em direcção às Canárias, arquipélago de que passaram ao largo na manhã de sábado, 14 de Março, cumpridas 700 milhas náuticas (cerca de 1300 km).

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

A chamada segunda divisão compreendia uma pequena caravela redonda (cerca de 80 homens), comandada por Bartolomeu Dias, e uma nau (com 150 homens), capitaneada por Diogo Dias (seu irmão), tendo por objectivo criar uma feitoria na cidade de Sofala (último ponto da costa oriental africana que os navios árabes alcançavam).

Depois de ter conseguido, pela primeira vez, dobrar o Cabo das Tormentas (em 1488), Bartolomeu Dias fora impedido de prosseguir caminho pela tripulação; em 1497, integrando a expedição de Vasco da Gama, tinha por missão, conforme ordem do rei, permanecer na fortaleza da Mina, na Guiné; por fim, em 1500, fazendo novamente parte de uma expedição que tinha por destino final a Índia, a sua missão limitava-se a navegar até Sofala.

O destino ditara que não chegaria nunca à Índia; em Maio de 1500, seria vítima de naufrágio no Cabo da Boa Esperança…

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

Completavam a divisão com destino à Índia a caravela São Pedro (com 50 homens), capitaneada por Pêro de Ataíde, e a naveta de mantimentos (com capacidade para 100 tonéis, transportando 80 homens), comandada por Gaspar de Lemos (ou André Gonçalves), que viria a ser encarregue da missão de regressar a Portugal, anunciando a descoberta do Brasil, transportando cerca de 30 cartas dirigidas a D. Manuel (de que apenas duas, a do escrivão Pêro Vaz de Caminha, e a do cirurgião e astrólogo mestre João, chegaram a salvo).

A estas juntavam-se ainda duas embarcações armadas por mercadores particulares, a caravela Anunciada, de D. Álvaro de Bragança (associado aos banqueiros florentinos Bartolomeu Marchioni e Girolamo Sernige e o genovês Antonio Salvago), capitaneada por Nuno Leitão da Cunha, e uma pequena nau mercante, de D. Diogo da Silva e Meneses (também em parceria com mercadores italianos), comandada por Luís Pires.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

A nau capitânia integrava um total de cerca de 190 tripulantes: para além do próprio capitão-mor, Pedro Álvares Cabral, cerca de 80 marinheiros e 70 soldados, para além de uma trintena de outros membros, desde serviçais, degredados, oito frades franciscanos e intérpretes, assim como os futuros funcionários da feitoria de Calecute, liderados pelo feitor-mor Aires Correia, e nos quais se incluía Pêro Vaz de Caminha, que seria o futuro escrivão da feitoria.

A sota-capitânia (denominada El-Rei), comandada pelo nobre castelhano Sancho (Pêro) de Tovar (vice-comandante da expedição), refugiado em Portugal, transportava cerca de 160 pessoas.

As restantes cinco naus (que o historiador Francisco Varnhagen defendeu, em 1854, terem os nomes de Espírito Santo, Santa Cruz, Flor de la Mar, Vitória e Espera), cada uma delas com uma tripulação de aproximadamente 150 homens, eram capitaneadas por Simão de Miranda de Azevedo (membro da nobreza), Aires Gomes da Silva, Simão de Pina (também de origem nobre), Vasco de Ataíde (“cavalheiro”) e Nicolau Coelho, um dos maiores navegadores de sempre, que integrara a expedição de Vasco da Gama, como capitão da nau Bérrio.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

Na mesma carta, o monarca português dava «muitos louvores ao Senhor Deus neste feito e por nos ser dito haver nessas partes gentes cristãs, que será o principal nosso desejo para convosco havermos de conversar».

Por seu lado a bula Cum sicut, do Papa Alexandre VI, de 26 de Março de 1500, viria conceder ao rei de Portugal o direito de nomear um comissário apostólico para superintender nos domínios portugueses do Cabo da Boa Esperança até à Índia.

Para além destes documentos, destacam-se ainda as instruções redigidas por Vasco da Gama – com indicações náuticas, de rota a seguir (com referência à que se tornaria famosa «volta do mar»), e sobre locais de reabastecimento de água, para além de orientações sobre a própria organização da esquadra –, assim como o regimento real, com instruções sobre o comportamento a adoptar na Índia, em particular o objectivo de impressionar o rei de Calecute, manifestando-lhe todo o interesse em estabelecer com ele paz e «boa vontade», «amizade e concórdia», a par da necessária atitude de prudência ou cautela, vistas as vicissitudes sofridas pela expedição de Vasco da Gama, para além de ordens no sentido da urgência na viagem de regresso e no cuidado na preservação da carga.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

Integravam a esquadra capitaneada por Pedro Álvares Cabral – indigitado por carta régia em Fevereiro de 1500, assumindo efectivamente o papel de chefe militar da missão, com a condução técnica a ser assegurada por navegadores experientes, como Pêro Escobar e Nicolau Coelho, beneficiando também da experiência de Bartolomeu Dias e Diogo Dias –, num total estimado entre 1200 e 1500 tripulantes, membros de todos os estratos sociais, desde a nobreza, com destaque para os capitães das restantes 12 embarcações, até aos degredados, passando pelos imediatos, contramestres, guardas, marinheiros, grumetes e artesãos (carpinteiros, tanoeiros, sapateiros e alfaiates), para além de religiosos (com destaque para o frei D. Henrique Soares de Coimbra) e físicos ou médicos (incluindo o cirurgião Mestre João).

De acordo com carta de D. Manuel, datada de 1 de Março de 1500, de que foi portador Pedro Álvares Cabral, a entregar ao Samorim de Calecute, o rei tivera nomeadamente o cuidado de juntar com os marinheiros e soldados, «pessoas religiosas e doutrinadas na fé e religião cristã, e também ornamentos eclesiásticos para celebrarem os ofícios divinos e sacramentos», de forma a apresentar a religião praticada pelos portugueses.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

Os preparativos para a partida haviam sido iniciados na manhã de Domingo, dia 8 de Março, reunindo-se em Belém, junto à capela da Ermida de São Jerónimo, o cortejo real, com os capitães da armada e banqueiros que financiavam a expedição, sendo a cerimónia religiosa presidida pelo bispo de Ceuta, D. Diogo Ortiz, também eminente matemático e cosmógrafo, tendo nela sido benzida a bandeira da Ordem de Cristo que o Rei D. Manuel I entregaria a Pedro Álvares Cabral.

Nas palavras do cronista João de Barros (nas “Décadas da Ásia”), «A maior parte do povo de Lisboa, por ser dia de festa e mais tão celebrada por el-Rei, cobria aquelas praias e campos de Belém», assim reforçando a narrativa do ambiente festivo: «E o que mais levantava o espírito destas cousas, eram as trombetas, atabaques, cestros, tambores, flautas, pandeiros e até gaitas […]».

A frota era composta por duas divisões: a primeira, integrando, para além da nau capitânia e da sota-capitânia, cinco naus, duas caravelas, uma nau mercante e uma naveta de mantimentos, dirigia-se a Calecute, na Índia; a segunda, incluindo apenas uma nau e uma caravela redonda, tinha por destino a cidade de Sofala (no actual Moçambique).

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

«E assim seguimos nosso caminho por este mar e longo, até terça-feira d’oitavas de Páscoa, que foram 21 dias d’Abril, que topámos alguns sinais de terra, sendo da dita ilha, segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas, os quais eram muita quantidade d’ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho e assim outras, a que também chamam rabo d’asno..

E à quarta-feira seguinte, pela manhã, topámos aves, a que chamam fura-buchos. E neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente d’um grande monte, mui alto e redondo, e d’outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz – carta de Pêro Vaz de Caminha.

Pouco mais de 6 meses depois do regresso a Lisboa (no final de Agosto de 1499) de Vasco da Gama, após a sua épica expedição de descoberta do caminho marítimo para a Índia, e aproveitando o período favorável à navegação, a 9 de Março de 1500, Pedro Álvares Cabral – comandando uma frota formada provavelmente por 13 embarcações (possivelmente dez naus, para além de três “navios redondos”, de porte mais reduzido – caravelas com velame quadrangular) – iniciava a segunda expedição marítima à Índia, tendo por missão principal a de instalar um entreposto português em Calecute que possibilitasse assegurar o monopólio do comércio de especiarias, ao mesmo tempo que visava impressionar o Samorim com o poderio e aparato da armada lusa.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
– “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

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