História


Foi lançado na passada sexta-feira no padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, o mais recente livro de Deana Barroqueiro, intitulado “O Navegador da Passagem” (Porto Editora), um romance baseado na história de vida de Bartolomeu Dias, o navegador que pela primeira vez (em 1488) dobrou o Cabo das Tormentas (que viria depois a ser rebaptizado de Cabo da Boa Esperança), tendo ainda participado na expedição de Vasco da Gama à Índia de 1497 e na viagem de Pedro Álvares Cabral, de 1500, que culminaria no achamento do Brasil, na qual, tragicamente, viria a naufragar.

P. S. Informações adicionais sobre esta obra, no blogue da autora – incluindo entrevistas na Antena 1 e na TSF, para além da leitura de um trecho do livro.

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Ainda no ano de 1498, Duarte Pacheco Pereira chefiara uma expedição secreta para além da linha de Tordesilhas, possivelmente até ao Brasil, que viria a ser oficialmente descoberto por Pedro Álvares Cabral, em 1500 (sendo então chamado de Ilha de Vera Cruz), num desvio para ocidente da segunda expedição à Índia.

Portugal, pioneiro na expansão marítima europeia – co-protagonista do “maior acontecimento desde a criação do mundo” (de acordo com Francisco López de Gomara, na sua “História Geral das Índias” ao imperador Carlos V, escrita em 1552), tal como sublinhado cerca de dois séculos depois por Adam Smith –, potenciando as suas inovações técnicas, científicas, estratégicas e até jurídicas, conseguia assim tirar partido da oportunidade única que se lhe deparara, para se impor como líder no contexto mundial:

– por um lado, o recuo da China no seu projecto de expansão marítima;

– por outro, o facto de as Repúblicas Italianas (nomeadamente a hegemónica Veneza) e a Catalunha não adoptarem a estratégia de ir para além do seu espaço tradicional de acção, no Mediterrâneo;

– finalmente, as potências regionais que controlavam as rotas comerciais em África, no Médio Oriente e no Índico não dispunham de poder naval para defrontar as superiormente armadas frotas portuguesas.

Um pequeno país, com uma localização periférica no contexto europeu, assumia então um singular papel precursor no desenvolvimento do sistema mundial de globalização, colocando pela primeira vez em contacto civilizações e culturas de diferentes continentes, à escala planetária!

Nomes como os do Infante D. Henrique, D. João II, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral corporizariam – enquanto intérpretes supremos de um empreendimento de labor colectivo – a recomendação de um filósofo latino: “já que não nos é dado viver por longo tempo, façamos algo que fique a atestar termos vivido”.

Ou, como escreveria Pedro Nunes na “História Universal” (em 1537): “descobriram novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos, e o que mais é: novo céu e novas estrelas”.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Descobrimentos – História e Cultura”, edição da Comissão Nacional Para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1987
– “História de Portugal”, de A. H. de Oliveira Marques, Palas Editores, 1980
– “História de Portugal”, de Jean-François de Labourdette, Publicações D. Quixote, 2003
– “O Império Colonial Português (1415-1825)”, de C. R. Boxer, Edições 70, 1981
– “Portugal – O Pioneiro da Globalização”, de Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas, Edição Centro-Atlântico, Maio de 2007

Contudo, o rumo seria então invertido, para leste; já depois de ter fundeado na denominada Baía de Santa Helena (a 4 de Novembro), a 18 desse mesmo mês de Novembro, era novamente dobrado o Cabo da Boa Esperança, para, a 25 de Dezembro, atingir a Terra do Natal.

Já em 1498, a 14 de Março, chegavam a Sofala, na costa de Moçambique, ponto limiar que os navegadores árabes e hindus (provenientes de Nordeste) haviam atingido.

Quer em Sofala, quer em Mombaça (no actual Quénia, onde chegara a 7 de Abril) a expedição portuguesa seria mal recebida. Apenas em Melinde (ainda no Quénia), já em meados de Abril de 1498, Vasco da Gama conseguiria angariar um piloto árabe, que se viria a revelar a chave para a descoberta da etapa final do percurso.

A épica expedição pioneira culminaria com a chegada a Calecute, a 20 de Maio de 1498, local onde os portugueses permaneceriam por três meses, em conflito com os mercadores árabes, tendo entretanto o Samorim de Calecute rejeitado os presentes oferecidos por Vasco da Gama, inviabilizando o desejado Tratado de Paz e Comércio – apenas em 1502, na sequência da terceira expedição à Índia (igualmente chefiada por Vasco da Gama), se daria a conquista de Calecute, com o estabelecimento de uma feitoria em Cochim, na costa do Malabar.

A viagem de regresso a Portugal da expedição precursora teria início em Agosto de 1498, aportando em Lisboa um ano depois, com apenas dois navios e não mais de 55 tripulantes, onde seria recebida em apoteose pelo rei D. Manuel.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Descobrimentos – História e Cultura”, edição da Comissão Nacional Para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1987
– “História de Portugal”, de A. H. de Oliveira Marques, Palas Editores, 1980
– “História de Portugal”, de Jean-François de Labourdette, Publicações D. Quixote, 2003
– “O Império Colonial Português (1415-1825)”, de C. R. Boxer, Edições 70, 1981
– “Portugal – O Pioneiro da Globalização”, de Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas, Edição Centro-Atlântico, Maio de 2007

D. Manuel começaria por encarregar também, novamente, Bartolomeu Dias, para a expedição visando a chegada à Índia, o qual praticamente inventaria as naus, combinando velas latinas e redondas.

Todavia, já com as naus prontas, o rei acabaria por entregar o comando da expedição a Vasco da Gama, incumbindo-o também de um papel diplomático e militar; a navegação era confiada nas mãos de pilotos experimentados, como eram Pêro de Alenquer e Nicolau Coelho.

A frota portuguesa partiria de Lisboa a 8 de Julho de 1497, compreendendo quatro embarcações (a nau capitânia, S. Rafael; a S. Gabriel, capitaneada por Paulo da Gama; a Bérrio, cujo capitão era Nicolau Coelho; sendo a quarta uma embarcação de mantimentos) e cerca de 170 homens.

Pouco depois, em Agosto, chegaria a Cabo Verde, a partir de onde rumou a sudoeste, para o mar alto, tal como recomendado por Bartolomeu Dias, que até aí seguira com a frota, dela se separando então, em direcção a Elmina.

A 22 de Agosto de 1497, já relativamente próxima da costa do Brasil, a expedição de Vasco da Gama chegaria mesmo a avistar aves que pareciam dirigir-se para terra.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Descobrimentos – História e Cultura”, edição da Comissão Nacional Para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1987
– “História de Portugal”, de A. H. de Oliveira Marques, Palas Editores, 1980
– “História de Portugal”, de Jean-François de Labourdette, Publicações D. Quixote, 2003
– “O Império Colonial Português (1415-1825)”, de C. R. Boxer, Edições 70, 1981
– “Portugal – O Pioneiro da Globalização”, de Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas, Edição Centro-Atlântico, Maio de 2007

A D. João II, suceder-lhe-ia o seu primo e cunhado D. Manuel I, o “Venturoso”, que – mesmo contra a opinião dos seus conselheiros – culminaria, no seu reinado de 26 anos (de 1495 a 1521), a expansão portuguesa iniciada pelo seu antecessor, com a criação de um Império no Oriente (estabelecido de 1505 a 1518), apoiado em figuras como Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque, assim se estabelecendo Portugal como principal potência marítima mundial, dominando, durante cerca de um século, a navegação entre a Europa e o Oriente.

Expulsos de Castela em 1492, os judeus haviam deslocalizado as suas casas financeiras e mercantis para Portugal, vindo entre eles também o cientista Abraão Zacuto.

Quatro anos depois, por pressão de Castela e de parte da Corte portuguesa, era também decretada a expulsão dos judeus e mouros de Portugal. Alguns deles acabariam por se converter como “cristãos-novos” e “mouriscos”.

Ainda em 1496, eram impressas em latim as tábuas astronómicas de Abraão Zacuto.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Descobrimentos – História e Cultura”, edição da Comissão Nacional Para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1987
– “História de Portugal”, de A. H. de Oliveira Marques, Palas Editores, 1980
– “História de Portugal”, de Jean-François de Labourdette, Publicações D. Quixote, 2003
– “O Império Colonial Português (1415-1825)”, de C. R. Boxer, Edições 70, 1981
– “Portugal – O Pioneiro da Globalização”, de Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas, Edição Centro-Atlântico, Maio de 2007

O interregno de cerca de nove anos, decorrido entre o regresso de Bartolomeu Dias (em Dezembro de 1488) e a partida de Vasco da Gama (em Julho de 1497) não tem, ainda hoje, uma clara justificação.

Poderá possivelmente ter sido devido a uma série de factores, como as viagens de Colombo; a morte do herdeiro de D. João II, em 1491; a doença e falecimento do rei em 1495; as opiniões contrárias ao prosseguimento do projecto de descoberta do caminho marítimo para a Índia, dados os seus elevados custos e a escassez de recursos económicos de Portugal…

Porventura, devido a algumas viagens secretas no Atlântico Sul – abrangidas pela política de sigilo implementada pelo rei – que teriam permitido uma mais adequada familiarização com as condições de navegação nesta região e a definição da mais apropriada rota para dobrar o cabo (a rota seguida por Vasco da Gama, cruzando o equador no meridiano de Cabo Verde, fazendo a “volta do mar” – quase tocando o Brasil – e apanhando os ventos de oeste, depois de flectir para sudeste na zona dos ventos variáveis de Capricórnio, era diversa da seguida por Bartolomeu Dias).

Comprovadas são as explorações na América do Norte por Pêro de Barcelos e João Fernandes Labrador, de 1491 a 1494, com a chegada à Groenlândia (em 1495, por João Labrador).

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Descobrimentos – História e Cultura”, edição da Comissão Nacional Para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1987
– “História de Portugal”, de A. H. de Oliveira Marques, Palas Editores, 1980
– “História de Portugal”, de Jean-François de Labourdette, Publicações D. Quixote, 2003
– “O Império Colonial Português (1415-1825)”, de C. R. Boxer, Edições 70, 1981
– “Portugal – O Pioneiro da Globalização”, de Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas, Edição Centro-Atlântico, Maio de 2007

D. João II conseguiria forçar as negociações do Tratado de Tordesilhas, concluídas a 7 de Junho de 1494 – o qual vigoraria oficialmente até 1777! (não obstante ter deixado de ser efectivo com a ascensão holandesa e inglesa no século XVII) –, afastando a referida linha divisória para 370 léguas a ocidente de Cabo Verde (sem contudo definir qual a ilha a partir da qual deveria ser considerada a contagem da distância…), conseguindo, com esse alargamento da zona de domínio português, garantir a soberania do Brasil, cujo achamento oficial se concretizaria 6 anos depois… no desvio da segunda expedição à Índia, comandada por Pedro Álvares Cabral.

Isto, para além, de assegurar também o “espaço de manobra” necessário para a realização da “volta do mar”, que se viria a revelar crucial para dobrar o Cabo da Boa Esperança.

D. João II viria a falecer no ano seguinte, em 1495, com 40 anos, sem descendência legítima.

Bibliografia consultada

– “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
– “Descobrimentos – História e Cultura”, edição da Comissão Nacional Para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1987
– “História de Portugal”, de A. H. de Oliveira Marques, Palas Editores, 1980
– “História de Portugal”, de Jean-François de Labourdette, Publicações D. Quixote, 2003
– “O Império Colonial Português (1415-1825)”, de C. R. Boxer, Edições 70, 1981
– “Portugal – O Pioneiro da Globalização”, de Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas, Edição Centro-Atlântico, Maio de 2007

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