Preste João das Índias – Padre Francisco Álvares


[…] Nas igrejas há muitas imagens pintadas pelas paredes: imagens de Nosso Senhor e de Nossa Senhora e dos apóstolos e patriarcas e profetas e anjos, e em todas as igrejas São Jorge. Não têm imagens de vulto. Muitos livros nas igrejas, escritos todos em pergaminho, porque não há aí papel, e a escritura língua tígia que é da primeira terra em que se começou a cristandade.

Na terra não costumam escrever uns aos outros nem os oficiais de justiça não escrevem nada. Toda a justiça que se faz e o que se manda é por mensageiros e palavra. Somente diz que a fazenda do Preste João viu escrever ao entregar e receber.

Na terra haveria muitas frutas e muitas mais sementes se os grandes não tratassem mal o povo que lhe tomam o que têm e eles não querem mais aproveitar do que hão mister e lhes é necessário.

Em nenhuma parte que ele andasse há carniçarias senão em corte e nenhuma pessoa do povo pode matar a vaca (posto que sua seja) sem licença do senhor da terra.

Diz o povo pouca verdade ainda que dão juramento, se não juram pela cabeça de el-rei. Temem muito a excomunhão e, se lhe mandam que façam alguma coisa em que seja em seu prejuízo, fazem-na com medo da excomunhão. […]

Vinho de uvas não há aí mais de duas casas em que se faça público, a saber, em casa do Preste João e em casa do patriarca abuna Marcos e se algum outro se faz é escondido. E o vinho com que se diz missa em todas as igrejas e mosteiros se faz desta maneira: tomam passas de uvas que têm guardadas nas sacristias e deitam-nas dez dias em molho e elas incham e deixam-nas enxugar e pisam-nas e espremem-nas em um pano e com aquele vinho que sai dizem missa.

Os cavalos naturais da terra do Preste João são muitos e não bons, porque são como bestas galegas; os que vêm da Arábia são muito bons como mouriscos. E os do Egipto muito melhores, grandes, muito largos e formosos, e muitos senhores criam cavalos das éguas que têm do Egipto em suas estrebarias. Em esta maneira, a saber, como nascem, não mamam mais de três dias da mãe e as mães acavalam-nas logo e os filhos poldrinhos prendem um pouco afastados das mães, têm-lhes muitas vacas de leite e dão-lho a beber.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)

O Preste João não tem lugar determinado para estar, anda sempre no campo com tendas e sempre terá no seu arraial cinco, seis tendas, entre boas e comunais e somenos; gente de cavalo e de mulas haverá sempre na corte de cinquenta mil para cima.

A cozinha do Preste João está um bom tiro de besta atrás do seu aposentamento e trazem de comer desta maneira: tudo o que há-de comer vem em escudelas e panelas de barro muito preto, em ganetas de pau e pajens que as trazem e sobre os pajens vem um palio de seda que os cobre de maneira que vêm reverenciadas estas iguarias. Há aí muitos reguengos do Preste em que se colhe grande soma de pão, o qual se dá a pessoas honradas e pobres e mosteiros e igrejas pobres, sem o Preste João se aproveitar de nada do proveito e rendas destes reguengos, somente esmolas. […]

Em toda esta terra não há aí ponte de pedra nem de pau. Em nenhuma parte dos reinos e senhorios do Preste João não há judeus. Há infindas canas-de-açúcar e nã o sabem fazer. Há na terra uvas, pêssegos (são maduros no mês de Fevereiro e acabam em Abril), muitas laranjas e limões e cidras e pouca hortaliça, porque a não plantam.

Alimárias: a saber, leões, onças, tigres, lobos, veados, antas, vacas bravas, raposas, lobos cervais, porcos-monteses, porcos-espinhos, gatos-de-algália, corças, gazelas, elefantes e de outras alimárias a nós não conhecidas, é a terra cheia, salvo duas que nunca lá viu, a saber, ursos nem coelhos.

[…]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)

Toda a gente que vem à igreja há-de comungar cada dia ou não vir à igreja. E acabada a comunhão lhes dão uma pouca de água benta com que lavam a boca.

Nenhuma pessoa se senta na igreja nem entram caçados nem escarram nem cospem nem deixam entrar nenhum cão nem outra alimária na igreja e confessam-se em pé e assim recebem absolvição. E nas igrejas dos cónegos assim rezam como na dos frades; os frades não casam, cónegos e clérigos sim. E quando vivem juntamente, os cónegos em circuito, comem em suas casas e os frades em comunidade e os maiorais destas igrejas se chamam licacanate e as mulheres dos cónegos têm casas fora do circuito onde eles vão estar com elas. E o filho do cónego fica cónego e do clérigo não, senão se depois se quer fazer. Não se paga dízima a nenhuma igreja, vivem das grandes propriedades que as igrejas e mosteiros têm. Demandas dos clérigos tratam-se perante a justiça secular.

A vestimenta é feita como camisa e a estola furada pelo meio e metida pela cabeça; não há aí manípulo nem amito nem cinta. Clérigos e frades todos trazem as cabeças rapadas e as barbas não. Os frades dizem a missa com o capelo na cabeça e os clérigos com a cabeça descoberta.

Em nenhuma igreja não se diz mais de uma missa e não se diz missa de esmola nem por mortos; quando se fina alguma pessoa, vêm os clérigos com cruz e água benta e incenso e rezam-lhe certas orações, levam-no a enterrar muito depressa, ao outro dia levam ofertas. Os adros todos são cerrados, que nenhuma coisa entra em eles.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)

O Preste João se chama acegue, que quer dizer imperador, e se chama negus, que quer dizer rei.

Não há maneira de física, somente põem fogo; em alguma doença põem ventosas sem fogo e para dor da cabeça sangram na testa com uma faca posta na veia e dão-lhe com um pau em cima para que tire sangue e porém tomam algumas ervas em beberagem para saírem.

Em toda a terra não há lugar que passe de mil e seiscentos vizinhos e destes poucos e nenhum lugar cercado, nem castelo; aldeias sem conto, as casas comummente ou as demais são redondas e todas térreas cobertas de terrados ou de palha, currais derredor. Dormem o geral em couros de boi, outros em leitos de correias dos mesmos couros, nenhuma maneira de mesa. Comem em umas gamelas chãs como bandejas de mui grande largueza, sem toalhas nem guardanapos. Têm bacios de barro muito preto como azeviche e púcaros do mesmo barro por que bebem água e vinho. Muitos comem carne crua e outros assada nas brasas e outros sobre a lenha e sobre bosta de bois onde não há lenha.

Há aí muita cera e velas e candeias, dela não fazem candeias de sebo; não há aí azeite senão um que chamam hena e é de umas ervas que parecem pampilhos, não sabe a nada e é formoso como ouro. Não há aí pescado senão muito pouco de rios, do mar nenhum.

Não há aí mosteiros senão de Santo Antão e não de nenhuma outra ordem, como dizem alguns frades que de lá vêm.

Fidalgos e religiosos, cónegos e clérigos andam vestidos, a demais da outra gente nus da cinta para cima e uma pele de carneiro pelo ombro atada do pé à mão.

[…]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)

II Parte 

Capítulo IX

De certas perguntas que o arcebispo de Braga fez a Francisco Álvares e respostas que a elas deu

[…] e o dito Francisco Álvares chegou a esta cidade de Braga aos 30 de Julho de 1529.

Disse que comummente não come toda a gente somente uma vez no dia; esta é à noite e jejum na Quaresma religiosos e clérigos estreitamente, de maneira que muitos na semana não comem mais de três vezes, a saber, terça, quinta, sábado, não bebem vinho de uvas nem de mel, bebem outras beberagens que se fazem de outros legumes.

Na Quaresma não se come carne nem leite nem ovos nem manteiga, ainda que estejam para morrer; comem legumes e algumas poucas frutas que aí há. E todas as quartas-feiras e sextas do ano jejuam todos os homens e mulheres, grandes e pequenos; isto se não entende do Natal até à Purificação de Nossa Senhora, nem da Páscoa da Ressurreição até à Trindade, que não há aí jejum. Frades, clérigos e homens fidalgos e nobres jejuam toda a semana, tirando sábado e domingo.

Disse que nenhuns homens morriam por justiça e que a muitos açoitavam e a alguns tiravam os olhos e a outros cortavam pé e mão, segundo a qualidade do crime; porém que ele vira queimar um homem porque fora achado em dois furtos na igreja.

Que o papa ou patriarca da terra do Preste João se chama abuna, que quer dizer padre, e não há aí outro nenhum em todos os reinos e senhorios do Preste que dê ordens senão aquele.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)

Capítulo CXV

Como o Preste nos mandou um mapa-múndi que lhe trouxéramos para lhe tornar as letras em abexim e do que mais passou e das cartas para o Papa

Estando nós no lugar de Dara, o Preste João nos mandou um mapa-múndi que havia quatro anos que lhe trouxéramos, que lho mandara Diogo Lopes de Sequeira, dizendo que as letras que estavam naquela carta se diziam as terras quais eram e se isto diziam, que logo ao pé lhes fizessem suas para saber quais eram as terras e logo nos pusemos, o frade embaixador que vai para Portugal e eu, ele escrevia e eu lia. E ao pé de todas nossas letras, pôs as suas. E porque o nosso Portugal é misto com Castela em pequeno espaço e Sevilha mui perto de Lisboa perto da Corunha, lhe pus Sevilha por Espanha e Lisboa por Portugal e a Corunha por Galiza. Todo o mapa-múndi acabado, que nada não ficou, o levaram. E no dia seguinte mandou chamar o embaixador e a todos os que estávamos com ele e logo nas primeiras razões nos mandou dizer que El-Rei de Portugal e El-Rei de Castela eram senhores de poucas terras e que não bastaria El-Rei de Portugal para defender o mar Roxo ao poder dos turcos e rumes e que seria bom escrever ele a El-Rei de Espanha para que mandasse fazer fortaleza em Zeila e El-Rei de Portugal mandaria fazer em Maçuá e El-Rei de França mandasse fazer em Suaquém e todos três com as gentes dele, Preste, poderiam guardar o mar Roxo e tomar Judá e Meca e o Cairo e a Casa santa e ir por todas as terras que quisessem. Respondeu a isto o embaixador que Sua Alteza está enganado ou mal informado, que se alguém isto lhe dissera, que não lhe disse a verdade e se o tomara bem o conhecimento das terras, porque Portugal e Espanha estão no mapa-múndi como coisas bem sabidas e não como necessárias de se saberem e que olhasse no mapa-múndi como estavam as cidades e castelos e mosteiros e assim estava Veneza, Jerusalém, Roma como coisas bem sabidas e em pequenos espaços e olhasse sua Etiópia como estava coisa não sabida, muito grande e muito espalhada, cheia de montanhas e de leões e de elefantes e doutras muito alimárias e assim de muitas serranias, sem ela mostrar o mapa-múndi cidade, vila nem castelo e que soubesse Sua Alteza que El-Rei de Portugal por seus capitães era poderoso para defender e guardar o mar Roxo a todo o poder do grão-sultão e do grão-turco e os guerrear até à Casa Santa e que outras maiores conquistas trazia nas partes de África com El-Rei de Fez e de Marrocos e outros muitos reis, subjugando todas as Índias e por força fazendo todos os reis delas seus sujeitos tributários como Sua Alteza bem sabia, por contrários de El-Rei de Portugal que eram os mesmos mouros da Índia tratantes na sua corte. A isto não veio resposta e salta em outra pergunta e nos despediu mandando-nos muito comer e beber e assim o fazia cada dia enquanto na corte andámos. Passando quatro ou cinco dias depois do mapa-múndi, nos mandou chamar o Preste e nos mandou dizer que ele queria escrever ao Papa de Roma a que eles chamavam Rumea Negus Lique Papaz, que quer dizer, o Rei de Roma e Cabeça dos Papas, e que lhe fizesse eu o princípio da carta, porquanto eles não tinham de costume escrever, que não sabiam como escreviam ao Papa e que estas cartas eu as havia de levar ao Papa. Respondeu D. Rodrigo embaixador, que nós não viéramos para escrever nem estava entre nós quem escrevesse ao Papa. Eu disse que lhe diria o princípio e daí adiante seguissem o que no coração tinham para lhe escrever ou requerer. […]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)

Capítulo CI

Da prática que o embaixador houve com o Preste sobre alcatifas e de como o Preste nos mandou ter serão e banquetear

Aos 17 dias de Janeiro nos mandou chamar o Preste João e todos fomos com o embaixador, portugueses e frangues e tanto que chegámos perto das tendas, mandou o Preste perguntar que alcatifas de vinte palmos, quanto custavam em Portugal. O embaixador lhe mandou dizer que ele não era mercador nem tão-pouco os que com ele vieram e que não sabia ao certo quanto custariam. E logo tornaram a mandar dizer que uma alcatifa de vinte côvados lhe trouxeram do Cairo por quatro onças de ouro. E o embaixador lhe respondeu que lhe parecia que custaria em Portugal vinte cruzados. E logo vieram com outra pergunta: se haveria em Portugal alcatifas de vinte ou trinta côvados. Mandou-lhe o embaixador dizer que sim. E logo tornaram dizendo que se ele mandasse ouro ao grão-capitão, se lhe mandariam estas alcatifas e se lhe mandariam tantas que alcatifassem toda aquela igreja. Mandou-lhe dizer o embaixador que lhe mandaria para mil igrejas tais como aquela. Ainda outra vez mandou perguntar se lhe mandariam aquelas alcatifas mandando ele o ouro. Responderam-lhe que tudo o que Sua Alteza mandasse pedir a El-Rei de Portugal ou a seu grão-capitão, que tudo lhe mandariam perfeitamente como Sua Alteza bem veria das coisas que dele tivesse necessidade. Cessou das alcatifas e mandou perguntar se haveria em Portugal quem lesse letra arábica e letra abexim. Responderam-lhe que todas as línguas se achavam em Portugal. E logo tornou a mandar dizer que bem cria ele que em Portugal haveria, mas que no mar, quem leria as ditas letras? Responderam-lhe que no mar havia muitos arábios e abexins que de contínuo andavam nas naus de El-Rei de Portugal e que os mouros levavam furtados os abexins de sua terra e os iam vender à Arábia e à Pérsia e a Egipto e à Índia aos portugueses. E os portugueses onde tomavam mouros acertavam tomar entre eles muito abexins e logo os forram e vestem e tratam muito bem, porque sabem que são cristãos e que aí trazíamos Jorge, língua, que sua Alteza bem conhecia, que fora tirado de cativo de poder de um mouro de Ormuz e que ele diria a Sua Alteza como lá fora ter. […]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Verdadeira Informação sobre a Terra do Preste João das Índias”, Dir. Luís de Albuquerque, Vols. I e II, Lisboa, Alfa, 1989)

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