Reino do Tibet – António de Andrade


A expedição do padre António de Andrade, nascido em Oleiros em 1581 – que viria a ser o primeiro europeu a chegar ao Tibete – vai ser relatada num documentário, a realizar brevemente por Jorge Fialho (prevendo-se a inclusão de imagens a filmar na Ásia).

Este documentário procurará recriar o percurso de António de Andrade desde a sua terra Natal até Goa, na Índia, e a sua posterior caminhada até ao Lago Mansovar, no Tibete, onde chegou em 1624, aí vindo a construir a primeira igreja cristã e um centro missionário (em Chaparanque, no então Reino de Guge).

(via SuperGoa)

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Novo Descobrimento do Gram Catayo, ou Reinos de Tibet

(ver texto integral)

(via Biblioteca Nacional Digital)

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As gentes destas terras, posto que pertencem ao Rajá de Siranagar, são porém de outra casta; a linguagem é diferente: comem carne crua, e assi como vão esfolando o carneiro o vão comendo, principalmente toda a gordura que tem; e os nervos dos pés é pera eles o melhor bocado; as tripas, depois de mal enxaguadas na água, as fazem em bocadinhos, e assi as vão logo comendo; alguma porém cozem, mas não lhe esperam mais que a primeira fervura, dizendo que a carne muito cozida perde o sabor e substancia. Comem a neve como entre nós o pão ou dôce; vendo eu um menino de dous pera tres anos com um pedaço nas mãos comendo dele, me pareceu que lhe faria muito mal; mandei-lhe dar umas passas, que actualmente nos mandara dar o Rajá do Pagode, e que lhe tirassem das mãos o torrão da neve; tomou ele as passas, e começando a comer as botou fora logo, chorando pela sua neve; e assi meninos, grandes e pequenos, comem a carne crua e arroz, assi como vem de Lira, e outras sementes desta sorte; e com isto ficam muito fortes e sãos, bem fora das cólicas da Índia. Aqui lavram e semeiam as mulheres, e os homens fiam; estas trazem por jóias nas orelhas umas folhas como olas de palmeira, enroladas de maneira que representam dous fusos, que saindo das orelhas assim dereitos, lhes correm pelo rosto um palmo e meio de comprido.

Na última destas povoações, chamada Maná, estivemos alguns dias esperando que quebrassem as neves de um famoso deserto, que corre daqui até às terras do Tibet, que se pode passar em dous meses do ano sómente, não dando elas lugar nos outros dez a comércio algum. […] 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

Nesta cidade nos fizeram grandes exames de quem nós éramos, de nossa pretensão; não podíamos dizer que (éramos) mercadores, que fora acertado, pois não levávamos fato; respondi, que eu era Português, e que ia ao Tibet em busca de um irmão meu, que havia anos lá estava, segundo as novas que me chegaram, entendendo ser o Rei; e revolvendo-nos o fato de vestir que levávamos, quando viram as lobas pretas perguntaram a rezão, ao que respondi que levávamos pera as vestir, se acaso aqueste meu irmão fosse morto, em sinal de dó, por ser aquela a côr que se usava nas nossas terras; então ficaram mais persuadidos que teria lá algum irmão, como dizia; depois de cinco dias nos deixaram passar, por particular mercê de Deus; e nós, com toda a brevidade possível, fomos caminhando obra de quinze dias por serras menos fragosas que as passadas; e passadas elas, chegámos a outras cheias de neve, nas quais a sombra e a frescura de fontes nos era já menos necessária, por haver já grande frio. Passámos o rio Ganga muitas vezes, não por pontes de corda bem dificultosas, como no caminho que tinhamos deixado atrás, mas por cima da neve que o cobria por grandes tratos, indo ele fazendo por baixo seu curso com grande estrondo. Não pude entender como era possível cair tanta neve, que abobadasse tão caudaloso rio, sem serem bastantes suas águas a levá-la, e derretê-la; parece-me que das serras ao pé das quais ele corre, não podendo sustentar a máquina e grande pêso da neve, cai sobre este rio como a montes, ficando com o pêso e queda mais composta e densa, cobrindo assi por cima em muitas partes como um tiro de espingarda em outras mais e em outras menos, deixando em lugares umas concavidades e aberturas medonhas que não causam pequeno pavor aos que passam por cima, não sabendo a que hora e ponto cairão aquelas abóbodas, como caem muitas vezes, servindo a muitos de sepultura. Assi fomos passando alguns dias, até que a cabo de mês e meio chegámos ao Pagode de Badrid, que está nos confins das terras do Siranagar; e este há grande concurso de gente, ainda das partes mui remotas, como de Ceilão e Bisnaga e outras que a ele vêem em romaria. Quando de Goa voltámos, vieram em nossa companhia dous moços cingalás de Ceilão, cumprida já sua romaria a este Pagode; queixaram-se que não acharam esmolas para se sustentar, e que padeciam muita falta; compadeci-me deles e mandei-lhes dar uns bazarrucos, que faziam um larim de Goa; porém, sabendo eles que não éramos gentios, não a aceitaram esmola, dizendo que só de Brâmenes, ou de Baneanes a recebiam. […] 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

Mas tornando às serras, são elas pela maior parte cheias de muito arvoredo, do meio para baixo, como grandes pinheiros de várias castas, e de estranha grandeza, uns como os nossos e outros mais frescos, que não dão fruto, mas de muito melhor madeira, tão altos, sem tortura alguma, que passem por duas e três altiras da Torre do Bom Jesu de Goa; não é encarecimento, senão realidade muito certa; em muitas partes achámos grande número de pessegueiros e pereiras carregadas de muita fruta verde, e muitas árvores de canela, ciprestes, limoeiros, roseirais grandíssimos, com rosas sem número, muitas amoras de sylva, umas pretas como as nossas, outras vermelhas como medronhos, mas todas muito boas; uma serra vi, toda de árvores de S. Tomé, sem folha, mas tão carregadas de flores, umas brancas e outras como as da Índia, e elas tocando-se umas às outras como os ramos, de sorte que parecia toda a serra um monte de flores, ou uma só flor, e foi a mais fermosa vista neste género que em toda a minha vida tive; há grande número de outras árvores como castanheiros, sem fruta, mas quebram com ramalhetes de fermosíssimas flores, de maneira que cada cacho é um fermoso e grande ramalhete da figura de um acipreste, tão talhado que não deixa a natureza lugar a se lhe acrescentar cousa alguma pera sua perfeição. As flores, como as nossas, são muitos lírios, rosas, e açucenas, e outras em grande número, tão perigrinas como fermosas, e em muitas partes vi grandes tratos de terra, cuja erva era só manjerona, tão fina como a nossa, mas a folha mais meúda; porém o que faz as serras mais aprazíveis, e menos dificultosas aos caminhantes, são as muitas fontes que delas correm, umas despenhando-se dos mais altos picos, outras brotando de vivas pedras ao longo do caminho, de água tão cristalina e fresca, que há mais que desejar. Assi chegámos à cidade de Siranagar, aonde reside o Rajá, e não tem outra, porém um grandíssimo número de aldeias como vilas pequenas. E a gente desta terra nos costumes mui diferentes da gente industana, não degolam os carneiros e cabras, que comem, mas afogam-nas, e dizem que ficando o sangue espalhado, faz a carne mais gostosa; e assi, sem esfolar as rezes, com a pele chamuscada e a carne mal assada, correndo-lhe o sangue, a comem; de ordinário andam descalços e com os pés gretados e cheios de golpes, e tão calejados que correm sem moléstia alguma por cima de pedras mui agudas e espinheiros sem se ferirem. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

Costumam estes gentios ir assi muito juntos, uns após outros, por o caminho não dar lugar a ir dous par a par; e vão dando grandes vivas e euges a seu pagode de contino, com estas palavras (ye Badrynate ye ye), alevantando qualquer a primeira palavra, e respondendo todos; com bem mágua nossa ouvíamos nós estas vozes do inferno,e já que não podíamos tomar outra vingança do maldito pagode, nos apostávamos a lhe lançar com a mesma frequência, outras tantas maldições, e pedir à Corte do Céu, em nosso nome desse outros tantos louvores e glórias ao Senhor Jesu. Logo na primeira jornada, a cada tiro de flecha, achávamos vários pagodes de obra sumptuosa, pela maior parte todos com lâmpadas acesas, mas todos de várias figuras, e todos abomináveis e ridículos; por guardas e servidores têm muitos iogues, que logo nas figuras mostram serem ministros do diabo; entre outros vimos um já mui velho, com as unhas e cabelo tão crescido, e a catadura tão disforme, que parecia o próprio diabo; e ele, sem falar palavra, como uma estátua, recebia os louvores e reverências dos gentios, que debruçados por terra lhe beijavam os pés. Desejei a este o que dois meses antes tinha este Rei mandado fazer a outro mais disforme; e foi que indo ele à caça em Agmir, ao longo de um grande tanque, onde concorriam naqueles dias grande número de gentios pera suas superstições, viu um iogue tão horrendo na figura que tinha os cabelos da cabeça compridos de quatro côvados e as unhas mais de palmo; e ele tão sem pejo, que com nada se cobria; era grande o concurso de gentios que lhe iam beijar os pés, e tudo el-Rei foi notando, ficando o iogue imóvel, sem lhe fazer nem uma reverência; voltando o Rei da caça, o mandou chamar; deu o iogue por resposta que não iria senão a ombros de homens no andor real; ouvindo el Rei esta resposta o mandou trazer a rasto pelos cabelos, e tendo-o diante de si lhe disse que ou ele era o diabo, ou retrato vivo do mesmo, pois não se podia imaginar cousa mais enorme; e logo lhe mandou cortar os cabelos e unhas, e dar outro castigo devido à sua descompostura, e após isso um grande número de açoites, e que o levassem pelos bazares, para que os rapazes com suas zombarias vingassem ou recompensassem os louvores e referências que lhe faziam os gentios; outro tanto se devia ao iogue de que acima falei. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

Com muita diligência e maior alegria, começámos a subri as serras; são elas as mais fragosas e altas que parece pode haver no mundo, e bem longe estou de poder declarar a V. R. a dificuldade com (que) por elas subimos; basta saber depois de andar dois dias desde pela manhã até à noite, não acabávamos de passar uma, cortando pelos mais altos picos, e neles por caminho tão estreito, que por muitas vezes não é mais largo, que quanto cabe um só pé, andando bons pedaços assi, pé ante pé, pegados com as mãos, pera não resultar, pois o mesmo é errar o pôr o pé bem dereito, que fazer-nos em pedaços pelos ares. São pela maior parte aquelas serras tão talhadas a pique, como se por arte estivessem a prumo, correndo-lhes lá no fundo, como em um abismo, o rio Ganga, que por ser mui caudaloso, e se despenhar com notável estrondo por grande penedia entre serras tão juntas, acrescenta com seu eco o pavor que a estreiteza do caminho causa a quem vem passando. Tem as descidas mais dificultosas e perigosas, pois carece homem em muitas partes de remédio de se poder pagar com as mãos como nas subidas, e assi é necessário descer em muitas partes como quem desce escada de mão, dando as costas ao caminho que vai fazendo. Duas considerações nos facilitavam muito estas dificuldades das serras: a primeira, ver que assi as passavam com muita alegria muitos gentios que iam em romaria ao seu pagode, e nós por glória de Jesu Cristo, nosso Deus, não fazíamos mais que eles; outra, que entre estes idólatras havia muito de crescida idade, já com os pés na cova e muito inferiores a nós nas forças e na idade, que nos serviam de boa confusão, e também de nos animar neste caminho. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Viagens na Ásia Central em Demanda do Cataio: Bento de Goes e António de Andrade”, Introd. e notas de Neves Águas, Lisboa, Publ. Europa-América, 1988)

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