Sabemos que, após a chegada das naus de Pedro Álvares Cabral à terra de Santa Cruz, se legitimava para Portugal um ponto de escala no caminho para a rota do Cabo. Na sequência, foram-se estabelecendo os portugueses nos pontos mais favoráveis aos objectivos do momento. Mas o Brasil, inserido como estava num continente bem mais vasto, não podia ser apenas ponto de interesse ou apoio para o povo luso. Já referimos a presença francesa, mas importa lembrar que também os espanhóis, que tomavam a direcção do Rio da Prata, navegavam por estas paragens, nomeadamente pela região da Guanabara. Por outro lado, não é novidade para ninguém que o corso era, à época, uma actividade rentável para os que o exerciam e para os respectivos monarcas, que o legitimavam e depois lhe partilhavam os proventos. Por isso, desde o primeiro quartel do século XVI, corsários, sobretudo franceses, navegavam por estes mares, chegando mesmo a estabelecer pontos de apoio em zonas favoráveis da costa. Esta situação acentua-se sobretudo a partir de 1530 para a zona a sul do Cabo Frio. Como resposta, Portugal passaria a enviar algumas expedições que visavam destruir esse terror dos mares e ameaça da costa. Assim se deve entender, por exemplo, a que foi comandada por Martim Afonso de Sousa, que partiu de Lisboa a 3 de Dezembro de 1530, e que chegou já em 1531. Levava como missão específica pôr um termo à presença dos corsários franceses que pretendiam rivalizar com o comércio português e atrair a amizade dos indígenas. Começaria D. João III a encarar de frente a defesa do Brasil? A resposta parece ser positiva, atendendo à ordem régia para a colocação de padrões portugueses como marcas de posse da terra. Tal decisão pode compreender-se ainda melhor, se pensarmos que ela ocorre na sequência do problema levantado por Espanha sobre a posse das Molucas e que se decidira em 1529. A questão colocada prendia-se com a reivindicação espanhola de ter chegado às ilhas antes dos portugueses. Por mais que D. João III demonstrasse que não era verdade, apresentando testemunhos, nada pôde provar, acabando por aceitar “comprar” a respectiva posse aos espanhóis, que lhe exigiram a módica quantia de 350.000 ducados de ouro. Não se torna, pois, difícil perceber que o rei de Portugal se começasse a preocupar com a marcação das terras, provando assim a sua prioridade na ocupação. Ora, em acção concertada com a colocação dos padrões e para um melhor conhecimento e aproveitamento da zona, D. João III organizava também as capitanias, que entregava a gente da sua confiança.

(Manuela Mendonça, “A tardia ocupação da região de Guanabara. Insensatez política ou mentalidade antiga?”, in “Raízes Medievais do Brasil Moderno – Actas”, Academia Portuguesa da História, Lisboa, 2008, pp. 284, 285)

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