Deixando outras notícias de viajantes, que nos levariam muito longe, devemos, no entanto, examinar um pouco mais longamente a que nos dá Marco Polo. O livro deste célebre veneziano foi muito lido, antes e depois de impresso. Durante séculos constituiu umas das principais ou a principal autoridade em coisas da Ásia. Em Portugal foi lido e estudado já no tempo do infante D. Henrique; foi vertido em português e impresso logo depois de 1500; e ainda anos mais tarde os nossos eruditos, como Damião de Góis e João de Barros, citavam correntemente o que ele havia dito do Preste João. A versão de Marco Polo interessa-nos, por tanto, pela sua essência, e ainda mais pela autoridade de que gozou, porque representa a opinião recebida e clássica durante muito tempo. Marco Polo conta detidamente – escrevia em 1298 pouco mais ou menos – a história daquele grande senhor, de cujo poder todos falavam na Europa, história passada menos de um século antes. Conta como o Preste João se indispôs com os tártaros, que antes eram seus tributários; como um novo, e ainda relativamente obscuro, chefe dos tártaros lhe mandou pedir uma filha em casamento; como o Preste, indignado com aquela audácia de um antigo súbdito e servo seu, tratou desabridamente os enviados: como aquele obscuro chefe dos tártaros, que era nem mais nem menos do que Chenghiz-Khan, se ressentiu e marchou contra ele, desbaratando-o e matando-o numa batalha campal nas planícies de Tenduc. […]

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004