5. A sociedade

A conquista de Malaca pelos portugueses não provocou grandes alterações na estrutura da cidade. A mudança mais visível foi, talvez, a construção de uma torre de menagem fortificada (baptizada de A Famosa), à moda europeia. No que toca à sociedade local, esta foi, no seu essencial, deixada sem modificações de maior, se exceptuarmos o ocaso da comunidade guzerate, que acompanhou o sultão deposto e que mais tarde se fixou no Achém. Malaca permaneceu uma cidade cosmopolita, com movimentos sazonais de população, que acompanhavam o ritmo dos fluxos mercantis. Os cálculos da população total, nos primeiros anos de domínio português, oscilam entre as 120 e as 200 mil almas (7), mas este número reduziu-se substancialmente ao longo dos séculos XVI e XVII.

Os portugueses aperceberam-se da necessidade de se preservar as características essenciais do empório, que perdurou como uma cidade totalmente virada para o mar, dependendo completamente dos abastecimentos que lhe vinham do exterior, na boa tradição dos sultanatos malaios (8). Os grandes centros produtores de arroz, nomeadamente o Pegu e Java, mas também o Sião, o Bengala ou mesmo o Coromandel, eram os locais de onde seguiam as cargas que alimentavam a cidade. Esta dependência causava uma permanente carestia de vida, colocando igualmente a cidade em risco em caso de guerra, como veio a ocorrer por diversas vezes.

Malaca estava dividida em três partes principais: a cidade propriamente dita, que veio a ser delimitada por um perímetro fortificado, e os bairros de Hilir e Upeh, na margem esquerda e direita do rio de Malaca, respectivamente. Nos arredores, existiam quintas e hortas pertencentes aos casados, mas subindo o rio era possível encontrar aldeias malaias, a mais importante das quais era Naning, habitada por gente originária do Minangkabau, no interior de Samatra.

Upeh era o coração económico de Malaca, onde residia o grosso dos mercadores asiáticos, nomeadamente quelins, chineses e javaneses, estabelecidos em bairros próprios (kampung keling, kampung cina), mas também os casados portugueses. Parte dos javaneses residia igualmente em Hilir. Havia igualmente a registar, à semelhança do que ocorria nos tempos do sultanato malaio, a presença de gente de outras origens, nomeadamente malaios, pegus, bengalis, achéns, siameses ou léquios (japoneses do arquipélago de Ryu-Kyu). O número de mercadores asiáticos decresceu ao longo do tempo, mas o número de quelins e javaneses era ainda substancial nas últimas décadas do século XVI, tendo decaído posteriormente (9).

_______

(7) Luis Filipe Thomaz, “Malaca e as suas comunidades mercantis na viragem do século CVI”, op. cit., p. 513.

(8) Denys Lombard, “Le Sultanat Malais comme Modèle Socio-économique” In D. Lombard e J. Aubin (eds.), Marchands et Hommes d’Affaires Asiatiques dans l’Océan Indien et la Mer de Chine. Paris, 1988, p. 118.

(9) Paulo Jorge de Sousa Pinto, op. cit., pp. 45 e 188-189.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. “Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas” In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

Anúncios