Olhando o conjunto dos textos que, no decurso dos séculos XVI, XVII e XVIII, se ocuparam do Índio do Brasil, vemos que este, longe de ser tratado de uma maneira uniforme, vai sendo integrado dentro do sistema ideológico de cada época e gradativamente enriquecido com novas facetas.

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O conceito do Renascimento, transcendendo o campo cultural, virá, na verdade, a significar uma renovação total de vida, em vista a novos conceitos e realizações, que o século XVI, no entanto desconhece ainda.

E é precisamente nesta altura que surgirá, ou melhor, que se materializará (pois o conceito, em certa medida, já existia) um novo tipo de homem-ideal, que vivia segundo concepções diferentes, alheio a todos os problemas que na Europa se agitavam, numa vida simples e sem artifícios, mais próxima, para muitos, da natureza e da verdade e, para muitos também, melhor do que qualquer outra. Este homem-ideal, identificado com o Índio Americano, será, portanto, necessariamente contraposto aos Europeus e representará, em relação a estes, um modelo a atingir.

É assim fácil de conceber a curiosidade que todos sentiam em relação a esses novos povos e a ansiedade com que recebiam toda e qualquer narrativa das viagens efectuadas. O Índio seria ou não mais feliz do que os Europeus, na sua vida de selvagem? Era o que importava acima de tudo descobrir. A resposta a esta pergunta e a resolução do problema variará, é claro, de acordo com as concepções de cada escritor. Podemos, no entanto, determinar duas correntes essenciais: uma, descrever-nos-á o Índio como um homem bom e feliz, e os seus defeitos serão levados à conta de divergências inevitáveis entre um e outro povo; outra, mais objectiva, reconhecerá as suas qualidades, apontará os seus vícios e, dando embora mais relevo àquelas ou a estes, apresentar-nos-á, afinal, um homem com qualidades e defeitos como o europeu, a ele superior em alguns pontos, mas bem inferior noutros.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 21 a 23

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