Itinerário – António Tenreiro


Capítulo XXIX

Da cidade e reino de Caraemite, e das grandes coisas que nela vi, e dos trabalhos que aqui passei. Caraemite é uma cidade, como cabeça de reino, mui notável em aquelas partes: é de grande comarca. Situada junto do rio Tigre para a banda do norte, cercada de mui notáveis muros e barbacãs e edifícios de grande admiração. Os muros são mui altos e mui largos, de cantaria e torrejados de muito altas e Formosas torres, e todos ainda mui inteiros e sãos. Disseram-me que fora dos gregos. As casas de dentro não são da maneira dos muros, e são edificadas de edifícios modernos de taipas francesas que agora usam os mouros. Somente têm igrejas sem telhados e campanários, onde parece que estavam sinos em algumas partes delas. Nasce dentro dela a uma parte uma fonte mui abundante de água, que corre um bom ribeiro que a atravessa, em que há muitas casas de moinhos e banhos. Há dentro grandes pomares de todas as árvores de fruta como em estas partes. Será de quatro mil vizinhos, todos Cristãos Jacobitas e Nestoris, e outros de outro costume, que se chamam Dustimaria: que quer dizer em nossa língua amadores de Santa Maria, todos gentes brancas. Falam língua arábia, e assim há turcos e doutras nações. É senhoreada pelo Grão-Turco, onde tem um Paxá por governador dela, com grande guarnição de gente de pé, que eles chamam janízaros: espingadeiros. E são escravos do Grão-Turco, filhos de Cristãos, dos reinos que ora possui por nossos pecados […].

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)

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Pelo meio desta cidade vai uma ribeira de água muito boa, de que se serve e bebe todo o pvoo, e a levam por canos por todas as ruas por debaixo do chão, onde cada rua tem em certos lugares uns bocais e fechos de pedra por onde a tiram. No Inverno vem quente e como é em cima sobre a terra em pouco espaço torna caramelo, e no Verão é esta terra tão quente que se costuma nela, em certas casas, debaixo do chão guardarem o caramelo homens que nisso tratam e vendem em todas as praças e ruas ao povo comum; e os honrados e ricos mandam trazer neve das serras e a têm em suas despensas e a deitam em água que bebem. Em esta terra nos agasalharam em umas ricas casas com grande jardim e pomar dentro, de fruta, como em Espanha, onde estivemos alguns dias descansando do trabalho do caminho; e o governador desta cidade nos mandou dar sempre o necessário de mantimentos, cevada e feno para os cavalos. E passados alguns dias nos partimos para a corte e campo do Sufi. […]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)

Esta cidade é habitada de Persianos e alguns Turquimães, gente alva e formosa de rosto e pessoa; tratam-se bem e vestem cetins, de que fazem os seus vestidos acolchoados, e panos de grã, nas capas com muitos e ricos alamares de ouro e de seda, e em forros muito ricos, que em esta terra valem muito e os vêm aqui vender mercadorias de Rússia, e assim de Veneza e de Turquia. Há nesta cidade muitas casas de banhos muito bem lavradas, onde se banham em o Inverno e Verão com o que fazem a gente muito alva e muito delicada. As mulheres são muito formosas e andam muito bem tratadas, e poucas vezes as honradas saem de casa. E quando saem vão a cavalo nos melhores cavalos que têm. Vão cavalgadas na sela como homens; o seu trajo é muito estreito nas mangas e recamado nos braços, esquipado no corpo e chega-lhes ao bico do pé, aberto por diante pólos peitos até à cinta, e assim as mesmas camisas. E para baixo ceroulas de seda, pola dianteira lavradas de ouro e aljofre, sobre as quais calçam meias calças de pano de escarlata, ou roxo, com sapatinhos muito delicados de seda e de couro, e sobre este vestido vestem uns roupões esquipados com mangas estreitas e compridas, que andam soltas; são forradas de arminhos e martas, e de outros forros. Na cabeça uns traçados com rebuço; e este é o trajo de todas as mulheres do Sufi e assim de outros grandes senhores ricos mercadores. O povo comum traz lenços finos de cores, acolchoados, com capas de panos de Londres e outros panos, todos com forros de raposas ou cordeiras; porque a terra se não pode sofrer sem eles, por ser muito fria no Inverno, que é quando cá em Espanha. O principal trato desta terra, e que mais rende ao Sufi, é de sedas cruas, que em esta cidade entram de outros reinos do Sufi, e daqui as levam para Turquia e outras terras de mouros e de cristãos. É muito abastada de mantimentos de toda a sorte, a saber, trigo, cevada e arroz e muitas carnes, e tudo barato; somente lenha e carvão é caro, porque vem de muito longe. Vale uma carga de camelo em a dita cidade seis ou sete Xais, que é uma moeda de prata que cada uma vale um tostão. Habitam aqui duas nações de cristãos, e há boa quantidade deles na terra: a uns se chamam Frangues, estes têm o costume e fé como nós, são os mais deles lavradores e oficiais de arte mecânica; e outros são arménios, que são deles mercadores grossos, e outros tratam em fazer vinho e o vendem escondidamente aos mouros. Têm algumas igrejas pequenas e oratórios em a dita cidade, onde dizem suas missas e celebram os ofícios divinos do costume da primitiva igreja, porém amedrontadamente.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)

Capítulo XV

Da grande e notável cidade de Tabriz em fim da Pérsia, em a província chamada Aldaba em linguagem Persiana.

Tabriz é muito grande cidade, situada para a parte do ocidente entre duas serras que depois se vão alargando, cada uma para sua parte, a saber, uma para a parte do norte e outra para a do meio-dia. É rasa e sem muro, de muito nobres casas de pedra e cal e de taipas francesas, todas sobradadas e de abóbodas; têm poucas janelas, somente têm frestas que lhes dão claridade, porque a terra é muito fria. Têm nelas vidraças muito ricas e de muitos laços de cores e pinturas. As casas, que têm grandes jardins e pomares, dentro têm edifícios mui grandes e antigos. É muito apinhoada em partes, onde têm portas para em ela entrarem e saírem que a fazem mais forte muro. Há muitas mesquitas, e alcorões mui altos de cantaria e de pedra lavrada, cousa de admiração. Há muito grandes praças que são cobertas por cima, em que habitam mercadores e se contratam as mercadorias, porque é de muito trato. Tem dez ou doze aposentos mui grandes e muito bem lavrados, e cada um é uma vila para se aposentarem os mercadores com suas mercadorias, que não têm senão uma porta por onde entram, em que está uma grossa cadeia atravessada para que não entre nenhuma pessoa de cavalo. E além destas, em que habitam mercadores, há outras muitas para recoveiros e suas bestas. Tem muitas ruas de todos os ofícios, mui abastada. A uma banda desta cidade está uma cerca muito grande, de grandes pomares e hortas, onde estão as casas do Sufi, e são uns paços mui lavrados, feitos de alabastro ou mármore daquela terra, muito fino, e de muitas vidraças ricas. Ao redor da dita cerca estão muitos álamos em ordenança postos e muito altos; e em partes tanques de água muito grandes e bem lavrados em que andam cisnes e pássaros de diversas maneiras.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980)

E como disse, é tamanha a bondade do sítio que sobre ser tão estéril há na cidade muitos e mui ricos mercadores e carafos que cambam a moeda de grosso trato, assim naturais como estrangeiros de diversas partes do mundo; e por isso de todas elas vêm ali muitas e mui ricas mercadorias. E posto que nesta ilha não há nenhuns mantimentos, a cidade é mais abastada deles que outra alguma, que se saiba em o mundo. E todas lhe vêm de carreto, a saber: trigo, arroz, carnes, manteiga e todas as caças, como em Espanha, frutas verdes, secas em conversa e outras muito diversas das nossas. Até água e lenha lhe vem de fora, e contudo sempre nas suas praças se acha feito de comer e fazem-no os mouros muito limpamente. Assam os carneiros inteiros e por esfolar e pelam-nos: e assim com a pele é a carne mais saborosa. Tudo se vende a peso, por mui grande regimento e taxa, e qualquer pessoa que a não guarda ou falseia o peso é gravemente castigado. Guarda-se muito a justiça a todos. A moeda que aqui se gasta é mourisca, de ouro e de prata fina e de cobre: a de ouro se chama serafim, e vale trezentos reais, a de prata tanga, e vale três vinténs, posto que os mouros lhe chamam Iaris, por se fazerem em uma cidade chamada Lara; e a de cobre se chama falus, e vale sete ceitis. Há nesta cidade muitos desenfadamentos, entre os quais há um para os homens curiosos de feitos antigos; e é que em um alpendre grande a certas horas do dia, pela manhã e à tarde lê um mouro velho crónicas antigas, assim de Alexandre como de outros varões ilustres; isto fazem para os mancebos se costumarem bem. Esta cidade é a cabeça do reino, que dela toma o nome. Tem muitas cidades e vilas, assim na costa da Arábia como na de Pérsia; e as mais delas abastadas de pão, carnes, pescados, tâmaras e delas pagava el Rei de Ormuz tributo ao Xeque Ismael ou Sufi, como lhe cá chamam. […]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980) 

A cidade é rasa, nem tem outra fortaleza senão as casas del Rei; é de muitas e muito formosas casas de pedra e cal de gesso e de dois e três sobrados, cobertas de terrado porque é muito quente no Verão. Têm as casas uns cataventos que são como chaminés claras e passam arriba dos ditos terrados: fazem-nos no meio de uma casa e por eles lhes entra o vento no Verão. No Inverno os têm tapados. Os moradores têm lei de Mafamede: são persianos e arábios; falam aravio e persiano. Os arábios são baços e os persianos alvos e bem apessoados e são todos muito dados a deleitações assim em o comer como em outros apetites carnais, principalmente na luxúria. São tão grandes cavalgadores que jogam a choca a cavalo. São naturalmente músicos, assim de falas como de mãos, muito trovadores e dados a ler histórias antigas e a outras boas manhas. São muito ciosos das mulheres, e com razão, porque são elas muito formosas e muito dadas à sensualidade. Saem de casa poucas vezes, e quando vão fora vão todas cobertas com um pano grande, como lençol com buracos, por onde vêem. Elas e eles andam muito bem ataviados. Trazem cabaias de seda acolchoadas no Inverno e capas de escarlata e de panos finos; e no Verão de lenço de linho muito delgado, de que também trazem camisas, e ceroulas. Calçam sapatos de pontilha de couro ou de seda. Trazem em as cabeças toucas brancas foteadas sobre uns barretes vermelhos com umas trombas vermelhas. E assim como andam bem ataviados de vestido, o andam de armas, a saber: terçados e adagas, arcos turquescos e frechas. São grandes frecheiros. Trazem uns escudos a que chamam cofos, de seda e de algodão, tão fortes que os não passa nenhuma frecha e continuamente trazem estas armas na paz. Na guerra acrescentam lanças e armas defensivas de lâminas de ferro e de aço.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980) 

Capítulo I

Da cidade de Ormuz, no Reino da Pérsia

Antes que o reino de Ormuz fosse ganhado por el Rei D. Manuel, que Deus haja, pagavam os reis de Ormuz párias ao Xeque Ismael ou Sufi, como agora lhe chamam; depois não lhas pagaram mais. E querendo el Rei D. Manuel saber o que rendia a alfândega de Ormuz, pôs nela oficiais portugueses em tempo que Diogo Lopes de Sequeira governava a Índia. Pelo que el Rei de Ormuz se alevantou logo contra os portugueses, mandando oferecer ao Sufi as párias que dantes tinha no reino de Ormuz com outras tantas e que o ajudasse contra os portugueses. Do que o Sufi foi contente: e mandou gente em sua ajuda. Mas quando chegou a terra firme, já el Rei de Ormuz era morto e feito outro rei, que estava concertado com os portugueses. Vendo os capitães do Sufi que iam em ajuda del Rei que a sua ida era debalde, tolhiam as cáfilas que iam para Ormuz. Pelo que el Rei de Ormuz perdia as suas rendas e escusava-se ao governador D. Duarte de Meneses, que então governava a Índia, que não podia pagar a el Rei de Portugal as párias que era obrigado a pagar. Para desapresar Ormuz desa opressão e da gente do Sufi mandou o governador uma embaixada por um homem de muito merecimento, chamado Baltasar Pessoa, o qual partiu da cidade de Ormuz, de que farei menção. Esta cidade de Ormuz está em uma ilha assim chamada, situada na boca do sino Pérsico três léguas de terra firme; terá de roda três ou quatro léguas: há nela uma pequena serra, que de uma parte tem uma pedreira de sal e que se chama o Sal Índico, e da outra é de vieiros de enxofre. O sal é de dentro muito alvo e de fora ruivo. Uma légua da cidade estão estão três poços de água muito boa e não tem outra salvo de cisternas, ou salobras, nem têm arvoredos, nem campos verdes. E conquanto assim é estéril por estar naquela paragem e ter o melhor porto que pode ser, fundaram nela os mouros uma cidade a que puseram o nome Ormuz, em uma ponta da ilha e os portos ficam em baías: um do Levante e o outro do Poente, em que podem tirar a monte naus de quatrocentos tonéis.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Itinerário: em que se contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal” (1560), Estampa, 1980) 

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